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Meu amor é espelho



Meu bem, sinto muito, mas
Eu te amo.
Amo mais aquilo que insinuas
Ser.
Amo o reflexo no
Espelho.
A projeção.
É doloroso reconhecer essa verdade
Luminosa.
Esse narcisismo docemente
Mordaz.
Também amo o não dito.
O sonho.
O desejo reprimido do
Beijo.
Do toque.
E enquanto ouço músicas
Em uma língua que não sei
Entendo
Que assim eu te amo.
Palavras soltas que transcendem a significância do
Todo.
Amo o círculo
Vicioso.
Aquilo que quero
E não aceito.
A resposta à mensagem de todas as formas pensadas
E até mesmo escrita
Mas nunca enviada.
E você foi descendo.
Descendo.
Descendo.
Meu bem, sinto muito, mas
Meu amor é covardia.
Meu  amor é espelho.

Como vai você?


Ela tinha todos os motivos do mundo para estar na fossa e de se sentir despudoramente brega. O tempo estava nublado e a precipitação se antevia pelas janelas da sala. Fazia frio de bater os queixos. Ela estava desempregada havia alguns dias. O seu cabelo se revoltou contra qualquer tipo de penteado, naquela manhã. Da mesma forma, a cólica se fez sentir, fazendo-a despertar mais cedo do que o despertador do celular, com aquela musiquinha irritante de todos os dias. Na mesa, dezenas de contas para pagar. E, além de tudo isso, no final daquela manhã - depois de ter deixado a torrada cair com o lado da manteiga para baixo, no café da manhã, e de ter queimado o arroz, no almoço - recebeu a notícia do rompimento do noivado de cinco anos. Pelo WathsApp.
- Covarde! – ela pensou em responder assim, com algumas exclamações a mais, mas somente berrou tal palavra ao lançar o celular contra a parede. Por um instante ela pensou em se matar e acabar logo com aquele inferno astral que a perseguia naquele dia, mas logo refutou tal possibilidade extrema. Talvez por medo ou por inconscientemente acreditar que aquilo não passava de uma fase; que a morte não solucionaria nada e seria comparável ao ato de covardia do seu ex-noivo.
Outra ideia era bancar o clichê da mulher ferida e ir para a casa ou para o trabalho do seu ex e fazer aquele escândalo, típico de novela das nove. Ela gritaria, daria uns tapas nele, jogaria pratos e copos no chão, caso estivesse em sua casa, ou rasgaria papéis e quebraria computadores caso o encontrasse em seu escritório. No meio do quebra-quebra ela soltaria um “Quem é ela?” ou “Qual o nome da vadia?” ou ainda “Como pôde terminar comigo pelo WathsApp!?” Mais que vingança, que desabafo desesperado, depois do abandono, aquilo tudo seria um ato libertador. Ao fazer aquele espetáculo do ridículo ela estaria proclamando liberdade. Porém, ela também recusou tal possibilidade. Bancar a louca rejeitada não era uma máscara que ela certamente usaria. Talvez por vergonha ou por orgulho.
Nem o suicídio, nem o urro felino. O que lhe sobrou foi o clichê da rejeitada resignada. Deitada no sofá, comendo brigadeiro aos montes, ela escolheu o existencialismo tropical. Escolheu ser brega. Exalar melancolia pelos poros. Ouvir “Como vai você?”, na voz de Antônio Marcos, muito ajudava na sua atuação digna de Oscar. Ela estava na fossa. Ela podia chorar, sem comedimentos. O soluço, nesse caso depois do choro aos borbotões, também era bem-vindo. Ela podia usar a colher de pau como microfone, na hora do refrão, não se importando com o encontro das lágrimas com as marcas de chocolate em suas bochechas. Tudo confabulava para que aquele entardecer fosse realmente deprimente. Ela se sentia a própria depressão encarnada.
Ela conseguiu comer todo o brigadeiro e cantar a mesma música dezenas de vezes. Até que veio a noite e com ela, o sono, e com ele, o sonho, e nele um sol nascia. Ela estava deitada no peito do ex, que era seu marido, após a noite de núpcias. Ébria de felicidade, de segurança, de saciedade e de uma forma diferente de breguice.
“Como vai você?” soava e ressoava enjoada entre o sol do sonho e a noite fria e chuvosa da realidade. A colher de pau caiu de uma de suas mãos.

Golpe



Arrastado, o a apareceu.
Melancólico, o m se moveu.
Obnubilado, o o sorriu.
Resignado, o r surgiu.
Golpeado de todas as formas,
descabelado ao raiar do dia,
o amor deveria constar
despoetizado na poesia.

Eu vi você





Ah, quando pensei que não havia o que esperar
Aconteceu
Quando julguei que o marasmo era meu lar
Apareceu
A luz do seu olhar
Ah, meu niilismo já perdia seu porquê
E assim meu pessimismo começava a esmaecer
Inocência
De amar sem fim
Transfigurado
Pela visão me entreguei
Eu vi você
E amei você
Até o amanhecer
Me reclinei
E repousei
No seu peito nu.

Voo



Na boca do abismo
uma mão
livre enfim

Ria


Ria hoje e sempre, pois é teu dia hoje... e sempre
O teu riso fecha infernos
Sorrindo abres paraísos
Acredite! Por que duvidas?
Ria, minha cara amiga e
Inevitavelmente verás
O Universo em torno a ti a entoar: Parabéns!

Ao derrotado


Ah! Essa gente que vence...
Que com soberba comedida sorri
Mostrando aqueles dentes enormes e brancos,
Congelados na fotografia,
Que não virará papel.
Sucesso.
Prêmio.
Que danação!
O falido, o derrotado
Que jaz na penumbra do esquecimento
É tão mais poético,
É tão mais profético!
Seus olhos turvos,
Que deixam entrever uma luz
No fim do túnel da existência
Oca e triste.
Esses olhos eu quero.
Esses olhos:
Pérola negra numa noite sem estrela.
Esses olhos.
Essa dor.
Perante eles me penitencio.
Perante eles encontro redenção.

Bolinhos de chuva


De sua janela,
ela olha o movimento,
ela olha o vento,
ela olha o tempo.
Ela voa e sobrevoa
a miserabilidade das coisas,
como filósofa niilista,
como deusa esquecida.
Desacostumada
com o cálido dia,
ela galopa nas dimensões,
descobre o mistério primordial,
num piscar de olhos.
Monotonia.
Ela fecha a janela.
Vai para cozinha
fazer alquimia:
bolinhos de chuva.
E somente ali
encontra Poesia.




Deus


Quando eu penso em Deus
Penso em tudo
Menos Nele
Enxugo gelo
Agarro o vento
Ao pensar Nele
E Ele ri de mim
E eu, resignado,
Acabo rindo com Ele.

Quando falo de Deus
Falo de tudo
Menos Dele
Dialogo com o espelho
Lambo o cotovelo
Ao falar Dele
E Ele se cala
E eu, resignado,
Me calo com Ele.

Quando sonho com Deus
Sonho com tudo
E às vezes sonho
Ele
Entre imagens e projeções
Um Menino
Sonhando sorri
E eu, estupefato, acordo
Ao descobrir que era
Desde sempre
Sonhado por Ele.




Trivial



Você gosta dos mesmos lugares
Daquela cadeira estofada indelicadamente
Dos mesmos filmes
De ouvir infinitamente aquelas canções
De amor
De perda
Você é tão previsível
Seu olhar
Seu riso tímido
Suas atitudes
Até suas exaltações
E incrivelmente eu amo
Amo tudo isso em você
Amo tudo isso que é
Você
Eu amo
Me surpreendo com a constatação
Eu, tão volúvel
Amando o óbvio e corriqueiro
Em você
Que é você
Meu bem, o amor tem suas
Eternas e belas contradições.
Estou aprendendo ao te aprender...

À espera da poesia


Papel vazio.
Eis o mistério!
Eis a questão!
A ânsia anterior à escrita.
Meu olhar, meus dedos são de pura expectativa.
Como a criança que fui e ainda sou -
sentada no meio-fio,
da rua de calçamento
precário,
gritando o retorno da mãe,
 que cedo não viria – assim estou
à espera da poesia.

Fim antes do fim


Sentado em sua cadeira
a meditar sobre a vacuidade da
existência,
sobre a inexorabilidade
do tempo,
do vento,
e a ausência
de chuva,
de sentido,
de riso
ele persiste,
alheio,
triste,
inerte,
como um rei não esclarecido,
que espera a notícia
da vitória na batalha
e mal sabe da carnificina
a se aproximar,
dos abutres,
dos odores,
do verme,
da Morte personificada,
que friamente constata,
não escondendo a alegria,
ao exteriorizar os dentes lívidos,
com a foice empunhada:
“Antes do fim, eu venci”. 

Ela


Ela tem cabelos leoninos
sorriso manso
olhar felino
anda como se já soubesse o caminho.
Ela não tem medo
de qualquer empecilho
olhando o infinito
desafia o próprio destino.
Nos dias de fúria urra
destroça os ídolos do coração
até que tudo vire cinza
para sua ressurreição.
Nos dias de dúvida
se agarra à única certeza
morte/vida/amor
até que tudo vire beleza.
Ela é lindo, lindo
e vai seguindo
indo, rindo
como se já soubesse o caminho.


Fundo



No fundo, bem lá no fundo, deve haver esperança,
Sorrisos que suplantam as lágrimas que jorram na superfície,
O "foram felizes para sempre" que a tristeza vigente desdiz.
No fundo, bem lá no fundo, deve haver um poço
que saciará a nossa sede de justiça - não de vingança -
de amor, de saudade, do aconchego do lar.
No fundo, bem lá no fundo, veremos que somos irmãos.
E não haverá mais discriminação, nem guerras ocas,
nem fronteiras imaginárias.
Os mapas desaparecerão.
No fundo, bem lá no fundo, deve brilhar uma luz,
que afugentará o desbotado medo.
E veremos as coisas com mais nitidez,
e assim também seremos vistos.
No fundo, bem lá no fundo, o fundo nem é tão fundo.
Nem tão longe.
É só abrir bem olhos,
deixar de amar as correntes que nos impedem de
levantar, erguer a cabeça
e alçar O voo.
E o fundo jorrará na superfície,
transfigurando nosso mundo,
nossas vidas,
nossos sonhos.
E o banquete da alegria, como diz a profecia,
estará sempre começando.
Eu vejo, prevejo, anseio:
Sorrisos entre brindes, gargalhadas de meninos,
e uma luz tão nostálgica e familiar a nos envolver.
Amém.


Errei


Errei.
Eu sei.
Mas tentei.
Desculpa esfarrapada?
Não.
Sinceridade
nua e crua.
Inda que inocente
(tola?).
O que resta
Se não continuar?
E continuando
 de passo em passo
Vislumbrar
Que a perfeição
É mera coleção de
imperfeições.

Errei.
Eu sei.
Mas não desisti.
Isso não é otimismo
Oco.
É gana.
Força.
Riso.

Errei.
Eu sei.
Levantei e
Segui.

Transbordamento



Alguma coisa lateja aqui dentro.
Uma mistura de tristeza e alegria.
É mais um poema que transborda
Em pleno dia.
E tudo rima.
E tudo rima.
Em meio ao gozo grito
“Ai”.
Obrigado, Deus.
Obrigado, Pai.

Superlativo



Eu não te amo muito.
Eu não te amo tanto.
Eu te amo.
E já é muito.
E já é tanto.
Amar já é superlativo.

Antecipação


Minha mesa:
meu coração.
De tudo,
Nada.
Objetos frios, vazios,
Sem conexão.

O amor não está sobre a mesa.
Não é refeição, nem sobremesa.
É grito contido,
Que da ausência das coisas
faz-se prelúdio,
Antecipação.

Fones de ouvido



Eu quero gritar
Eu quero gritar o meu amor
Eu quero gritar o meu amor por você
Mas você não quer ouvir
Você, com seus fones de ouvido,
Indiferente ao meu desejo avassalador
De gritar o meu amor no meio da rua,
Segue indiferente
Não olha para o lado, onde estou
E baixinho repete refrãos inaudíveis
De alguma canção
Que eu julgo ser de amor
  Aquele amor que quis gritar
E que você não quis ouvir.





E eu esqueço



Palavras ocas.
A chuva cai.
A carta não
chegou ao endereço.
Alguma coisa apodrece
quando se esquece.
E eu esqueço.
A vida segue seu curso.
O rio também.
O atleta não
acertou o arremesso.
Alguma coisa apodrece
quando se esquece.
E eu esqueço.
Diamante adormecido
no coração do homem.
Cada um tem o seu preço.
Alguma coisa apodrece
quando se esquece.
E eu esqueço.
A chuva se intensifica.
A luz não veio.
Na capela, a beata reza o terço.
Alguma coisa apodrece
quando se esquece.
E eu esqueço.
Tudo é dor.
Tudo é amor.
Indiferente a tudo,
o bebê dorme no berço.
Alguma coisa apodrece
quando se esquece.
E eu esqueço.
O poema será esquecido.
O poeta também.
Mas o fim pode ser
O recomeço.
Alguma coisa apodrece
quando se esquece
E eu esqueço.