DIA D


Chega a hora na qual temos que nos despir, na qual temos que revelar a verdade nua, fria, crua também. Para muitos pode ser um momento epifânico, no qual algo de maravilhoso acontece, como uma revolução copernicana que coloca no centro da existência o sol que se insistiu em ocultar. Mas para outros a coisa nem é tal fenomenal, pois o que se vê é um plutãozinho insignificante, rebaixado, frio, cinza e distante. É a dolorosa dinâmica da revelação. Existe uma luz profunda, existe uma escuridão profunda que vestes superficiais não conseguem conter por muito tempo. Num dia qualquer, numa hora qualquer, quando menos se espera, a máscara cai, o véu se rasga e o que estava contido num frágil vaso de barro é exposto à luz do Dia. Este é o Dia do verdadeiro encontro, da dor imensurável e também da redenção. E você? Tem medo ou anseia por este dia?

Alucinação


Estou alucinada por você

Meu pedaço de toucinho

Meu bocado de mau caminho

Meu odor feminino

Meu opúsculo equino

Meu quarto minguante

Meu elo extravagante

Meu nobre cavalheiro


Estou alucinada por você

Minha figura de linguagem

Minha sonolência adormecida

Minha arma mortífera

Minha febre sadia

Minha moléstia doentia

Minha alma inebriante

Minha exaltação estonteante


Estou alucinada por ti

Estou alucinada por

Estou alucinada

Estou

Armadilha


Sou caco de vidro

De um mosaico não construído

E seria flor

E seria lírio

Como aquele que encantou

Os olhos do Profeta

Os olhos do Poeta dos Poetas

Num maravilhoso entardecer.


Sou parte de um todo que não há...


Seria beleza

Alvo de contemplação

Mas não passo de armadilha

Mas não passo de ferida

A passantes desavisados

Que olham o céu

Não o chão.

Amor mórbido


Daria tudo para te ver agora

Daria o meu ovário para fecundação

se em troca soubesse que irias renascer em mim


Daria tudo para te ver agora

e falar ao seu ouvido o que queres ouvir

Daria minha alma,

meu desejo,

minha força,

minha angústia,

minha dor

Nem que para isso sucumbisse em vida


Eu te daria a minha carne viva e viveríamos de momentos sem vida

Da morte de um no outro e do outro em um

Dessa celebração eterna

Dessa morbidez carnal

Desse amor fatal