Senhor...




Que não cesse em mim o olhar íntimo das coisas triviais.

Que eu saiba calar quando se fizer necessário socar o grito.

Que minha pele suporte as marcas do calor do tempo, presa ao som do vento.

Que eu possa olhar o horizonte e descobrir a Ti,

Lá longe, onde me encontro só,

Onde um dia serei pó.

Que o peso da minha dor suporte carregar meu corpo,

Convalescido em misericórdia epifânica.

Que eu saiba sentir e respirar no outro um pouco de Ti...

Senhor...

O tocador da lira


As mãos suaves dedilham uma triste canção,
que toca o coração
do barqueiro,
do monstro mítico,
e do deus,
que chora lágrimas de ferro.

Alguém se compadece
com o som da lira,
na terra onde tudo é sombra
e esquecimento.

Na terra dos vivos,
sem o amor de sua vida,
a melodia acaba,
a amargura sufoca o canto,
do mais belo dos poetas.
A morte torna-se a melhor estrada.

E, mesmo estando em pedaços,
com a cabeça flutuando nas águas claras,
de sua boca ardente de amor,
o tocador da lira canta o nome da amada,
até que o rio a sufoque para sempre.

Para sempre.
Para sempre.

Da montanha sagrada,
ao raiar do dia,
rouxinóis azuis entoam sublimes canções.

Eu descobri



Descobri que é difícil viver sem você,
Que a distância se torna presença em meu coração.

Descobri que sinto a sua falta
Cá dentro do meu peito,
Que cada palavra escrita se torna melhor sentida.

Descobri que é difícil viver da sua presente falta,
Do seu aparente desaparecer
 Aparecido do nada,
Da sua complacência em ouvir,
Do seu jeito ao sorrir.

Descobri que não basta conhecer o outro 
para saber que ele existe,
Que só existir não basta.
Descobri que é necessário
SENTIR



Imagens do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” dirigido por Jean Pierre Jeunet

De vez em quando



De vez em quando
eu vejo graça,
eu vejo luz.
E esta manifestação repentina
deixa-me feliz, absorto, teologado.
Sinto-me conectado com tudo o que é dom.
Os mistérios se me revelam espontaneamente.
Eu gozo com a horizontalidade que percebo
e com a Beleza que emerge,
silenciando a feiura vigente.
A Beleza se me apresenta
como Amada, Amiga e Esposa.
Passeamos de mãos dadas,
por caóticas avenidas,
como se fossem jardins floridos.