Esperança



Dois poemas tristes

em uma manhã nublada.

Nem tudo está perdido...

Lua



A lua, tão propícia aos enamorados, mas não a mim!

Lua da minha origem, divindade nua.

Sois o que sou, fina flor de candura.

Sede o luar da aurora boreal.

Sede o vaga-lume do escudeiro fatal.

Sede a expressão do amor.


A lua dos meus prazeres é abrasadora.

Não machuca ninguém, nem faz sentir dor.

Ela ouve o dizível e fala o não dito.

Nota o gemido e também a risada.

Escuta a palavra não anunciada.


A lua, pequeno condor a cintilar no céu, porém não no meu.

Lua da minha broa, embarcação sua.

És o que fui, a origem pura da luz.

Sede una em muitas.

Sede brilho e escuridão.

Sede a auréola angelical do anoitecer.

Sede o aperto no peito de um sofredor.


Não apenas resplandece.

Ilumina o mar bravio.

Deixa rastos na areia.

Forma réstias na lareira apagada.


A lua, acalanto do ser, esquecimento do meu.

Lua da minha vida, olha para mim!

Tu és o meu amparo quando me falta ardor.

Sede um guia a me guiar por entre as nuvens.

Sede aquilo que comporta o tudo.

Sede tudo em meio ao nada.

Sede sempre fervor.


Enche-me de sensações insaciáveis.

Lua de encantos aleatórios e de sensações sutis.

Aplaca o meu desejo vil, minha ira virulenta.

Liberta-me desse covil que me abomina.


Causa de minha cumplicidade.

Pena maior a cumprir.

Sofrimento solitário na dor.

Instantes de angústia na espera.


Caução de causas perdidas.

Cenário de cenas tórridas.

Observadora dos casais.

Amante irresistivelmente amada.

Fragmentos de adeus


Você buscava certezas no meu olhar.
Um porto seguro onde pudesse ancorar
seus receios, medos, neuroses,
mas sou abismo de contradições,
tempestade agitada.

Você esperava pouco de mim.
Seus anseios subestimavam minhas potencialidades.

Sou pássaro azul!

Naquele entardecer,
com doçura na voz, eu te disse:
'Vem voar comigo!'
Sem falar, você respondeu:
'Não.'
Então voei sozinho chorando/sorrindo
até fundir-me no Azul da imensidão.

Agora, do alto te olho
e tenho pena,
compaixão.
Você... tão cinza,
queria condenar-me à sua morte!
Eu não aceitei.

Amar-te-ia por toda vida!
Amar-te-ia por toda a vida!

Meu amor era maior.
Fui maior.
Fui demais para você.


Indignação


Fúria que embriaga-me sozinha,

raiva, sentimento, ira,

angústia, dilema,

fúria, situação e problema.


Preciso externar o meu sentir,

falar o que se cala,

dizer o que não digo,

preciso soltar essas amarras.


Pretendo gritar a dor da alma,

varrer a sujeira,

cuspir no ser amorfo,

pretendo escarnecer o moço.


Saída não há!

Só devo entrar,

Sair para quê?


Devemos nos mover,

saibamos lutar e enfrentar,

sabemos viver,

queremos morrer?