Regresso


Retornarei à terra do nascimento.
Voltarei ao castelo onde fui gerado.
Reverei os pisos azulados,
as paredes humildes, mas altaneiras.
Visitarei os bosques floridos,
as relvas esverdeadas daquele olhar.

Retornarei ao tempo perdido
e ouvirei a música que não parou de soar em meu peito,
embora há tanto tempo não a escute.
Cantarei, dançarei, alegre, bobo, feliz
por novamente sentir a brisa acariciar meus olhos dispersos.

Retornarei ao reino do adeus
e lá serei coroado por não ter sido rei.
Reencontararei as aves multicolores
que enfeitavam o céu azul intenso.
Relembrarei do azul do céu, sim, relembrarei.

Retornarei ao Azul infinito
e lá serei Infinito por ser azul.
Voltarei às nuvens brancas e chorarei nos riachos doces.
Sim! serei doce, enfim serei.
Mesmo depois de encontrar-me com o mar.

Negação


Não sou poetisa

Atrevo-me a poetizar

Sou audaciosa, atrevida

Sou uma flor a desabrochar


Meu maior prazer é brincar do que não sou

Escrever é meu ponto de fuga

Minha lucidez alucinada

Sou uma história inacabada


Risco no papel gotas de acaso

vivo neste céu anacromático

Sou uma farsa em ode pueril

de imaginação fértil e viril


Falo sobre o tudo e sobre o nada

Do lado obscuro das palavras

Da imensidão do tempo

Do poder da rima

Da trivialidade da vida


Quero suspirar aliviada

quando o fim da estrofe sucumbir em versos

os meus desejos mais profundos

E falar em grito ao mundo

Tudo que meu coração cogita a permanecer imune.

O poema que morre em mim


O poema que morre em mim

Deixa-me triste e cabisbaixo

Mais dentro que por fora

Olho tudo e vejo falta

A obviedade das coisas me fadiga

O grito contido me assola

E quando a dor é grande demais

Começo liricamente a divagar

a elaborar teorias mirabolantes

Que o cientista mais rígido pode repudiar

- O que me importa

se o devaneio tornou-se meu refúgio?-

Penso na décima sétima dimensão

No paraíso além do abismo

Penso que lá existe eu mesmo

Apenas mais translúcido e poetizado

Que estou a semear os poemas que matei

E quando tudo vira flor

Presenteio-me com o mais belo girassol

E sorrio amarelo em meio às plêiades e nebulosas

Que enfeitam meu jardim.


A cabeça voa longe demais

Mas meu peito sangra.


O poema que morre em mim

Faz-me como um louco divagar

E ao mesmo tempo me poetiza e prepara

Para o encontro com uma amiga

Que a vida me impediu de admirar.

O poema que morre em mim

É silencioso prelúdio de minha decomposição/ressurreição.


Quando eu pensava em você



Pensei em você como uma última esperança

Como um fim de um começo

Eu pensei em você até quando não pensava em pensar

Pensei

Ontem,

Hoje,

Agora,

Minutos atrás,

Segundos,

Instantes,

Pensei...

E ao pensar, me perdi

pensando haver me encontrado.